Bustle: Demi Lovato salvou a si mesma
Bustle: Demi Lovato salvou a si mesma

Demi Lovato se imaginou no meio do oceano. Conforme a mulher de 27 anos de idade boiava, seu cabelo preto longo nadando pelas ondas escuras, foi lhe dado um comando: Levante sua mão se você quer perder peso. Devido à Lovato ser uma pop star que já produziu nove Top 20 Billboard singles, tendo que lidar com o olhar minucioso de 86 milhões de seguidores e uma mídia obcecada com o Índice de Massa Corporal – e também porque ela lida com distubios alimentares há mais de uma década – Lovato levantou sua mão tatuada com unhas extravagantes.

Enquanto Lovato se mantia suspensa em mar aberto com apenas uma mão, foi lhe dado outro comando: Levante sua mão se você está disposta a fazer algo sobre seu distúrbio alimentar. Visto que Lovato estava, naquela época, não em um oceano mas sim em tratamento de seu distúrbio alimentar – também pelos problemas com o vício que resultaram em uma overdose de opioides – Lovato cedeu ao comando de seu conselheiro e levantou a outra mão. O que, obviamente, a deixou sem nenhuma pá para a ajudar a não se afogar no mar metafórico. Então Lovato escolheu deixar de lado a idolatria pela magreza.

“Eu costumava ter pessoas me observando uma noite antes de um photoshoot para que eu não comesse tanto e estivesse inchada no dia seguinte,” Lovato diz logo depois do shoot de sua capa da revista do final de junho.
“É um mundo totalmente diferente agora… Eu nem se quer me preparo mais para photoshoots. Posso até comer um subway de café da manhã.” Lovato dá essa notícia através de uma mesa na casa de Los Angeles que ela alugou com seu namorado, o ator Max Ehrich. Ela está resplandecente com cabelo e maquiagem prontos mas sem sutiã com uma blusa da Selena Quintanilla. Lovato deixou seu apartamento luxuoso em março quando seu vizinho testou positivo para COVID-19. Ela inicialmente havia se mudado com sua mãe e padrasto antes de perceber que “é um pouco difícil estar em um relacionamento novo na casa da sua família.” Atrás de Lovato, em sua sala de estar temporária, senta uma equipe com máscaras cirúrgicas que não perdem seu tempo monitorando o seu peso.

A nova equipe é liderada por Scooter Braun, quem Lovato abordou em 2019, um ano depois de sua overdose. Era hora de seguir em frente de seu empresário de longa data Phil McIntyre, que trabalhou com Lovato desde quando ela era uma adolescente. “No passado,” Lovato diz, ““Eu projetei meus próprios problemas com abandonamento em outras pessoas, especialmente homens que eu enxergava como figuras paternas. Eu tive que refletir em, ‘Como que eu quero que o relacionamento com meu empresário seja sem o involver nos meus próprios problemas paternos?”

Na reunião de Lovato com Braun, ele diz, “minha intenção era ser respeitoso e negar.” Ele simplesmente não sentia como se conseguisse ter outro cliente. “Ela estava nervosa,” Braun diz. (“Eu estava nervosa porque eu queria tanto que ele fosse meu empresário, e eu estava morrendo de medo de ser rejeitava,” Lovato explica. “Também, como eu lidei com uma overdose publicamente, eu não sabia se alguém iria querer me empresariar depois disso.”) E então Braun teve uma revelação. O que eu vi era que ela precisava de alguém que não precisasse dela. E mais ou menos na metade da reunião, [minha parceira Allison Kaye e eu] nos olhamos e meio que rimos. Aí a Allison me mandou mensagem falando ‘Você está pensando a mesma coisa que eu’. Eu sabia que poderia ajudá-la. Eu sabia que Allison poderia ajudá-la. Eu sabia que estávamos numa posição, tanto em nossas vidas pessoais como em nossas carreiras, que se a Demi precisasse ficar parada por três anos, ela poderia fazer isso. E se a Demi precisa que temos uma conversa honesta e tirá-la de algo, isso não afeta minha reputação.”

A implacação é de que Lovato é o tipo de pessoa que repetidamente se encontra precisando sair do meio de algo. “Eu preciso me sentir conectada com as pessoas que estão comigo todos os dias e preciso confiar neles,” Lovato diz, “Que eu possa ser vulnerável, transparente e honesta. E se eu estiver tendo um ataque de pânico no meio de um photoshoot ou algo assim, que eu possa sentar no camarim com qualquer um que estiver lá, e a pessoa possa me ajudar.”

Pedir ajuda ao invés de perdão parece ser uma nova conquista para Lovato, na qual os problemas no passado pareciam ser lidados com urgência quando explodiram em público. Mas, ela também é única no meio das celebridades de seu nível querendo expor cada detalhe sobre seus pontos baixos. Em 2015, Lovato castigou uma tatuadora por “tatuar uma adolescente drogada” após a mulher ter ido no Instagram reclamar sobre o comportamento de Lovato durante uma sessão de tatuagem embriagada.

Mais cedo esse ano, Lovato compareceu ao The Ellen DeGeneres Show para explicar que seu distúrbio alimentar alavancou sua recaída em 2018, descrevendo como sua equipe antiga dava à ela um bolo de melancia com cobertura light todos os anos em seu aniversário. A mãe de Lovato, Dianna De La Garza escreveu um memorial estimulante e revelador sobre sua própria anorexia, depressão, e problema com uso de substâncias, Falling With Wings. A autobiografia conta com anedotas como a vez que Lovato à enviou uma mensagem dizendo “Me desculpe desde já.” (De La Garza estava de alguma forma aliviada em saber que aquele pedido de desculpas era sobre Lovato atacar fisicamente sua dançarina e não uma nota de suicídio. Lovato escreveu o prefácio do livro). Quando Lovato terminou sua primeira tentativa na reabilitação, devido ao incidente em 2010, ela pegou o conselho de dar sua primeira entrevista apenas três meses depois de completar seu tratamento. “Isso foi cedo demais na minha opinião,” Lovato diz agora. “Mas ninguém sabia uma forma melhor, pois eles estavam olhando para a recuperação das pessoas de uma forma gananciosa.”

“Eu senti como se aqui estivesse alguém tão doce, tão boa e que obviamente tem passado por várias m*rdas,” diz Braun. “Ela cometeu alguns erros durante sua jornada, mas também como quando criança foi colocada nessas posições…” Ele nem precisa dizer quais posições eram essas.

Para se colocar em situações vantajosas, Lovato diz, “Eu tive que aprender da forma dificil como ignorar minhas necessidades e quereres por muitos anos.” Ela realmente diz que nem sabia o que aquelas desejos eram. Era um comportamente autodestrutivo, Lovato diz, “Eu estava apenas fazendo algo porque não sabia o que fazer.”

Antes da quarentena, chorar era difícil para mim. Eu tinha um pensamento programado na minha cabeça quando eu tinha 16 anos que eu só iria chorar se alguém me pagasse para isso.

2020 deveria ser o ano do retorno de Lovato pós recaída, começando com sua volta no Grammy com seu single tocante “Anyone” e sua performance do hino nacional no Super Bowl, os dois apresentados em figurinos angelicais brancos da cabeça aos pés. Lovato atuou com Will Ferrell na comédia da Netflix que estreiou em junho: Eurovision Song Contest, ela foi contratada para apresentar um talk show na plataforma Quibi, e irá lançar uma série-documentário de 4 partes no Youtube para “mostrar aos fãs sua jornada pessoal e na música nos últimos 3 anos.” Lovato também tem planejado lançar seu álbum e sair em turnê, planos que foram adiados até esses eventos de pandemia estiverem menores e potencialmente acabados. No momento, o projeto de Lovato é a Lovato. Ela está pintando eucaliptos havaianos e pinturas de George Floyd inspiradas no movimento Black Lives Matter – “Eu estou meio envergonhada sobre como isso ficou porque não se parece nem um pouco com ele,” Lovato diz. Ela está trabalhando com uma vasta constelação de nutricionistas, treinadores e conselheiros espirituais nas quais ela diz ter avisado que essa pausa estava por vir. “Ela estava tipo, ‘Não entre em pânico quando seu trabalho parar. Ele vai dar uma pausa dramática'”, Lovato diz sobre a profecia. “Entao eu meio que estava preparada de uma forma estranha, então só adaptei. Eu acho que o univero — Deus — preparou isso para acontecer na minha vida.”

Deus acaba de entrar novamente na vida de Lovato, com ajuda de Braun, quem a levou para a igreja pela primeira vez em anos nesse último inverno. Lágrimas são mais uma entrada recente. “Antes da quarentena, chorar era difícil para mim. Eu tinha um pensamento programado na minha cabeça quando eu tinha 16 anos que eu só iria chorar caso alguém me pagasse para isso.” Agora Lovato diz, “eu comecei a trabalhar nisso, me permitir sentir as dores de todas as perdas que já tive e adversidades ou traumas que já enfrentei. Eu acho que minha habilidade de ser vulnerável e ser mais íntima com as pessoas tem crescido muito.”

A pandemia foi um golpe sem graça para aqueles que por sorte podem com segurança se abster do olhar público com suas crises existenciais. Mas Lovato experimentou paradas bruscas antes disso, com suas múltiplas idas à reabilitação. Mas, essa é a primeira vez que a pausa não foi uma reação de seu comportamento. Essa é uma oportunidade ao invés de repreensão. Uma chance de sentir por ela mesma, não uma audiência ou um salário. Depois de reconhecer os sacrifícios dos trabalhores de linha de frente e expressar simpatia, Lovato admite que esse tempo tem sido “muito bom” para ela. “É muito comum para pessoas apenas trabalharem nelas mesmas quando crises acontecem ou quando elas percebem que estão caindo em padrões ou comportamentos antigos novamente,” Lovato diz. “Então ser capaz de entrar nessa experiência sem uma crise pessoal e apenas estar tipo, eu posso trabalhar em mim mesma agora porque eu tenho tempo. É uma coisa muito bonita.” Adicionando, ela diz, “Eu não estava na reabilitação; Eu estava la fora no mundo com Netflix. Então quando eu estava muito cansada da terapia, eu colocava Schitt’s Creek.” (para aqueles que nunca experimentaram reabilitações, geralmente não existe Wi-fi nelas.) “Eu tive essa oportunidade,” Lovato diz sobre a quarentena. “Eu estava tipo, eu vou me adptar. Eu vou fazer mudanças com isso . Vou aprender com isso.”

Um dia depois de nos falarmos, Lovato escreveu uma carta para seu pai. Eles se reconciliaram depois de sua morte, a carta foi uma nota de amor mesmo que fosse um verso. “Eu sou quem eu sou por causa de você,” Lovato escreveu. “E eu sou grata por isso. Por causa da sua ausência, eu sou uma mulher independe agora. Por você ser um mentiroso, eu sou honesta quando falho.”

Um dilúvio de verdade bruta transmitida com um tom brilhante e o sorriso de uma ex-estrela da Disney. Embora Lovato tenha tido um distúrbio alimentar antes de se tornar famosa, ela diz, “Eu olhei em volta e tive um momento que estava tipo, ‘Uau. Isso é terrivelmente normalizado.'” Muitas pessoas bonitas em sua volta estavam enfrentando auto abuso. As façanhas de Lovato com uso de substâncias se tornaram cada vez melhor documentadas, e ela buscou ajuda, ela queria explicar que os corpos que as pessoas tinham na TV não eram “normais” e quebrar as dolorosas consequências de querer parecer daquele jeito. “Quando eu fui para o testamento em 2010,” Lovato diz, “Eu sai com a experiência de escolher falar sobre meus problemas e minha jornada com a possibilidade de ajudar as pessoas, ou me manter em silêncio e voltar para o Disney Channel. E eu estava tipo, isso não parece autêntico para mim. Então eu escolhi conta minha história. Eu tinha esse complex de “salvadora”, que pensei, ‘Eu fiz esse pacto com Deus quando era mais nova’c — Em que se Lovato se tornasse uma cantora de sucesso em troca de seu trabalho. — “e agora eu tenho salvar as pessoas.”

Em 2013, Lovato publicou o Staying Strong: 365 Dias no Ano, um libro best seller na New York Times sobre suas experiências diárias, “Se você passar muito tempo vivendo no passado, você não será capaz de viver o presente. Faz um esforço para seguir em frente hoje.” Após procastinar até pouco antes do prazo de publicar, Lovato acabou escrevendo o livro em questão de dias. “Mas isso foi mais prazeroso para as pessoas do que qualquer outra coisa, então através dos elogios das pessoas eu percebi que não estava sendo autêntica.” Ganhar elogios por sua relação com a recuperação foi uma forma de “alimentar os padrões que eu tinha e que estavam me levando para destruição,” Lovato diz. “Eu acho que é isso que você ouve quando você le aquele livro. Eu me apaguei a recuperação, onde eu mudei meus vícios reais para vicios da recuperação.” Agora, Lovato tenta balanciar o impulso de expor com a recusa de se destruir com isso. “Eu tenho que estabelecer limites em entrevistas para não trata-las como sessões de terapia,” ela diz com certeza. “Mas eu sou capaz de ouvir meu progresso através das palavras que estou dizendo quando leio elas de volta.”

Você consegue ver o impacto da honestidade de Lovato na cultura das celebridades e a necessidade por processamento público contínuo. É difícil imaginar Taylor Swift revelando seu próprio distúrbio alimentar em no documentário da Netflix Miss Americana sem a precedência de Lovato. Entretando, Beyoncé foi louvada por sua transparência no documentário Homecoming da Netflix sobre sua dieta disciplinada para o Coachella: “Sem pão, sem carboidratos, sem açúcar, sem laticínios, sem carne, sem peixe, sem álcool,”(Talvez Beyoncé tenha esclarecido: ‘estou com fome’). Anteriormente, Lovato diz: “Eu teria me preparado para algo como o Coachella ou um photoshoot, eu não sou igual a Beyoncé. Mas eu não posso sacrificar minha saúde mental porque eu tenho características no meu histórico que Beyoncé pode não ter. Para mim, é algo muito arriscado.”

A amiga de Lovato Jameela Jamil a conheceu há mais de uma década, quando Lovato era uma adolescente e Jamil uma apresentadora de rádio. Jamil assistiu Lovato navegar pela honestidade radical como uma celebridade e isso a inspirou com sei próprio ativismo sobre disturbios alimentares e imagem corporal. “Ela é revolucionária da forma como é franca com a sua verdade. Isso vem com um custo e risco enorme; uma vez que você abre a porta para sua vida pessoal, as pessoas se sentem com direito sobre você. E elas projetam esse complexo salvador sobre você, o que é impossível manter. Ela assume tanto controle (???) e faz isso corajosamente para ter certeza que os fãs não serão machucados do jeito que ela foi na sua juventude. Ninguém mais fez o que ela fez. Não posso enfatizar o suficiente quando digo às pessoas que ela é uma grande parte de onde eu tirei forças para realmente começar a falar o que penso”.
Jamil foi motivada por Lovato para ser uma ativista, mas Lovato diz que durante aquele tempo, “Mesmo eu tendo uma grande voz para cantar, eu não tinha uma grande voz para falar sobre mim mesma. Eu não expressava minhas necessidades… E aí depois de um tempo com o que você precisa e ser sendo ignorado, você explode.”

Para não explodir, Lovato precisou finalmente descobrir o que ela quer. “Eu quero uma carreira que não tenha nada a ver com o meu corpo,” ela disse, imaginando a possibilidade de não ser nem um objeto, nem uma declaração contra a objetivação. “Eu quero que seja sobre a minha música, minhas letras e minha mensagem. E eu quero uma carreira de longa duração que eu não tenha que mudar a mim mesma por ela. A música me trouxe muitas alegrias quando eu era jovem e eu perdi essa alegria durante toda a agitação da indústria. Fiquei miserável. E eu nunca mais quero que seja assim novamente. Isso é o que eu quero.”
A questão então é quem Lovato realmente é quando ela não está experimentando trauma. Será se ela irá se tornar uma estrela “normal” ao invés de constantemente lutar os padrões normalizados do estrelato. Quando a cantora era tão publicamente amarrada à sua dor está feliz, sóbria e em paz com Deus, as tragédias são apenas coisas ruins que ela experimentou, ou elas fazem parte dela? “Eu não acho que tenha uma resposta certa para essa pergunta,” Lovato diz lentamente. “Eu sei que essas coisas aconteceram comigo. Eles me tornaram quem eu sou. Então talvez seja um pouco de cada.” Assim que Lovato diz isso, ela devanta suas mãos direita e esquerda, palmas abertas a todas as possibilidades. Ela sorri. Ela ainda está boiando.

Fonte: https://www.bustle.com/entertainment/demi-lovato-quarantine-interview-new-boyfriend-manager